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Aí eu descobri que felicidade não deve ser usada no singular. Assim como Minas Gerais, a felicidade são várias, de variadas formas, cores e sabores

Felicidade

Não se trata de descoberta minha, mas é certo que não é a gente que procura a felicidade. É ela que nos procura e encontra quando bem quer. Tenho o prazer de informar que ela me encontrou várias vezes. Só que aparecia de repente, e de repente ia embora. Aí eu descobri que felicidade não deve ser usada no singular. Assim como Minas Gerais, a felicidade são várias, de variadas formas, cores e sabores.

Falo isso porque fui feliz muitas vezes na vida. Fui feliz quando criança nas ruas, nos matos e nas matas da minha terra. Fui feliz nas palmadas da minha mãe. Fui feliz quando matei meu primeiro passarinho, uma garricha desprevenida, tadinha. Também fui quando atravessei pela primeira vez o poção do Rio Jacuri, a prova definitiva de que já sabia nadar. Tinha magrelos sete anos.

Também fui feliz quando escrevi minha primeira carta e enderecei ao meu velho pai para informar que já não era mais anolfobeto (sic). E quando montei a cavalo, e quando vesti uma calça comprida, e quando calcei sapato, e quando fiz a primeira comunhão, e quando tirei meu diploma no curso primário.

A felicidade exigia pouco e dava as caras frequentemente naqueles tempos. Ela aparecia em forma de pamonha frita, de bolinho de milho verde que a gente chamava de carajé, de broa de fubá, de arroz doce, de pé-de-moleque, de corá – que não sei por que chamam hoje de curau. E estava sempre presente no molho de cebolinha, nos biscoitos de goma e nas bolachas assadas no forno a lenha. Aparecia todo ano no frango com quiabo e angu liso (era feito de milho verde), e o ano todo nas frutas apanhadas no quintal, no café com leite adoçado com rapadura queimada. Manifestava-se também no doce de leite feito pela Dodosa, a moça aleijada e muda, sem pai e sem mãe, que minha mãe criou desde pequena. Ninguém sabia fazer doce de leite que nem a Dodosa.

Felicidade foi meu primeiro prêmio literário, aos 11 anos, quando uma composição que fiz com o tema Minha Mãe foi exposta no quadro de avisos do colégio salesiano São João, de São João del-Rei, onde passei três anos enclausurado. Felicidade semelhante se repetiria anos mais tarde, quando fui premiado no Concurso Unibanco de Literatura, o único até hoje aberto para autores inéditos, com 14 mil trabalhos inscritos. E foi grande a felicidade de conhecer, no dia da premiação, dois dos jurados, Otto Lara Resende e Lygia Fagundes Teles. Eles fizeram questão de saber quem era o autor do conto Mistérios Gozosos, que os dois defenderam para primeiro lugar no concurso. Só podia ser, disse Otto, ao saber que eu era mineiro.

Também fiquei feliz quando fui o vencedor em outro concurso, este para ingressar no jornalismo. Foi promovido pelo xará Afonso de Souza, então editor no Diário da Tarde. E mais feliz fiquei quando, depois de três anos trabalhando também como redator de publicidade na agência Irmãos Pinho, fui contratado pelo Edgard Melo, um dos donos da maior empresa do ramo em Minas, a ASA.

Fui feliz quando venci o primeiro concurso Profissionais do Ano, da Rede Globo, com um comercial para a Loteria Mineira. Esse prêmio se repetiria anos mais tarde com um comercial para a Copasa. Felicidade dupla, portanto, na propaganda, com prêmios em dinheiro, entre outros muitos como redator.

Fui feliz quando o Almir Sales, da Setembro Propaganda, me contratou pagando luvas que davam pra quitar meu financiamento no BNH. E a felicidade voltou a me beijar o orgulho quando o Walter Andrade, da JMM, me tirou da Setembro, também pagando luvas que incluíam uma cota de sócio do Minas Tênis Clube.

Houve alguns outros momentos felizes nesta minha vida já em fase de extinção, como o dia em que conheci a Sônia, minha dona há quase meio século. Deixo vários outros fatos felizes de lado, porque alguns são rigorosamente impróprios.

Você, que leu essa lenga-lenga até aqui, perguntará se nunca fui infeliz. Fui sim, meu amigo.
Tive momentos de imensa, profunda infelicidade. Mas também não cabem aqui. Melhor continuar esquecendo-os. Ou escrevendo para esquecê-los.

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Por Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor no Brasil (in DomTotal)