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Gritava-se Europa com todas as forças na Europa que tinha medo, em 1930, em 1935, em 1938. Europa: mas será a fórmula? A palavra? A verdadeira palavra? A palavra mestra? A boa fórmula, a fórmula da salvação? Quero dizer: é concebível que substituir pela Europa o caos das nações rivais, eriçadas, armadas; é concebível que a criação de uma Europa promovida ao nível de instituição, de organismo, de super-Estado; é concebível que a criação de uma Europa que se sobreponha às nações europeias, que delas faça províncias de um grande Estado unificado; é concebível que a realização do velho ideal dos Estados Unidos da Europa, tantas vezes proclamado como salutar e soberano; é concebível que esta realidade ponha verdadeiramente fim aos problemas, às guerras, às misérias de toda a espécie que são fundamento da humanidade?

Está aqui o problema enunciado e, segundo creio, correctamente enunciado. Mas acabamos de o ver, acabamos de o dizer, o problema da Europa ultrapassa a Europa hoje. O problema da Europa já não é um problema europeu, é um problema mundial. A Europa, se é preciso fazê-la, é em função do planeta.

A Europa [será] uma formação política possível? Ora, enfim, olhemos. Que existia em 1939? Havia três Europas: primeiro, uma Europa das ditaduras totalitárias [formava] um bloco; em segundo lugar, a URSS [formava] um outro bloco a cavalo em dois continentes; e depois, como dizer, o bloco dos velhos valores tradicionais… havia três blocos, três Europas.

Então o problema político, a operação política é agrupar estes três blocos, reuni-los, levá-los a colaborar politicamente, lançar sobre eles uma armadura ao mesmo tempo resistente e leve que os mantenha em ligação… Esta armadura tem nome. Chama-se, necessariamente, balança, a famosa balança, adequada para equilibrar as massas políticas. Porque se trata de fazer a Europa com os elementos consentidores. Trata-se de fazer a Europa com o consentimento, a boa vontade, a colaboração dos três blocos.

Balança política? Equilíbrio? Há muito tempo que Herder, nas suas Lettres pour l ’humanité, deplorava que a política das cortes tivesse, dizia ele, obrigado Frederico II, o seu herói, a meios violentos. Mas quê, concluía: a humanidade terá alguma vez tido na Europa inimigo pior que a política dos grandes Estados?

Balança política? Mas balança de quem, de quê? Só dos Europeus? Ora, vamos lá. É impensável. Já vimos isso, é o mundo inteiro que, quer queiramos quer não, se encontra comprometido neste assunto, no seu todo. E o quadro europeu logo destruído que rebenta sob a agressão das forças contraditórias, que rebenta no domínio político, como rebenta no domínio cultural. Porque, há que dizer isto, estamos muito mais próximos de um chileno, de um californiano culto do que de muitos homens, que no entanto nasceram dentro dos limites geográficos da Europa, da velha Europa, e que deixaram de ter uma linguagem que nos fosse comum.

Encaremos as coisas de frente. Nunca, nunca, nem mesmo em 1914, semelhante situação se pôs, nunca foi tão trágica. Em 1914, uma civilização sólida, unificada, brilhante estendia-se através da Europa. Ninguém pensava que ela pudesse perecer. Servia de esteio, tinha-se o sentimento de que era um esteio. A sociedade dos cérebros europeus trabalhava com pleno rendimento, sem preocupações de fronteiras, pela ciência, pela filosofia, pela arte, pela verdade. À cabeça, na vanguarda, na direcção do movimento científico, sucediam-se os grandes físicos. Era um inglês a prolongar o trabalho de um francês, um alemão a prolongar o trabalho de um inglês, um dinamarquês que, por seu turno, leva um pouco mais longe a sua descoberta, um americano que, saído da fila, inova e cria uma outra série, um novo encadeado.

Ciência? E a arte? A pintura francesa conquistava o universo e primeiro a Alemanha. A nova arquitectura, a dos volumes cheios e do cimento armado, tomava toda a Europa. Qualquer sala de concertos era um esplêndido rendez-vous da «Paneuropa». Os mestres russos sucediam aos mestres alemães, Albeniz a Debussy, e não continuo…

Grandes filósofos entendiam-se livremente por toda a parte, sem preocupações de fronteiras. O bergsonismo coloria com os seus matizes, cambiantes como um papo de pombo, o pensamento de um sem-número de homens de todas as raças. A própria religião assumia, um pouco por toda a parte, aspectos novos. O modernismo não passava de um facto francês. Uma grande leveza do viver, sem grosserias, sem rudeza, sem gozos vulgares invadia toda a Europa. Havia ali algo de suave e de sólido, uma pátria dos espíritos.

Que fizemos desta pátria? Ó Florença, Florença dos nossos vinte anos, com os seus grandes mosaicos que ressoavam sob os nossos passos… E gostaria de dizer também: ó Munique de antes da guerra, Munique das artes plásticas, da música e da cerveja. E tu, querida, terna Viena, toda vibrante de violinos, e todas as grandes universidades da Alemanha, e todos esses professores da Alemanha de então, que nem sempre compreendíamos, é certo, e que nem sempre seguíamos, que não nos compreendiam, a nós e que não nos seguiam, mas, enfim, o trabalho deles, a iniciativa deles, o método deles exigiam o nosso respeito…

Ah, a amargura do querido e grande Pirenne forçado a dizer, ele, que se tinha formado nos métodos de lá, a amargura de Pirenne forçado a dizer aos seus amigos, aos seus alunos quando, logo a seguir à guerra, regressou à sua cátedra, em Gand, a amargura de Pirenne forçado a dizer-nos, é o título do seu discurso: «O que temos que desaprender sobre a Alemanha… »

Tratava-se ainda da outra Alemanha, da imperial, a de antes de 1914.

Bem sei! Há uma solução. E houve quem pensasse nela. Houve quem se deixasse ir até ao ponto de julgarem possível essa solução, precisamente aquela contra a qual se instituiu o sistema do equilíbrio, a solução da Europa feita por um único homem, em nome de uma só nação e de um só ideal, o dele. Foi-nos proposta, esta solução. Disseram-nos: vamos, aceitem, devem ter tido o dilema, terão que aceitar.

Vamos, depressa, braços ao alto, mãos ao alto… baixem os braços, estendam as mãos às algemas e o pescoço à canga… É preciso. Afinal, é para bem da humanidade. Assim salvareis a vida! Etpropter viíam vivandi perdere causas…

Na verdade, para que serve tão cruel sacrifício? Para que havia de servir? Para a paz? Ora, vamos lá. Nem sequer o escondem: serve para guerras entre continentes, serve para novas ruínas, para novos armamentos. Porque esta Europa unificada pela conquista, esta Europa nascida da força é pela força que se terá que a manter. Pela força, pela política, pela tortura, logo, [pelo] medo, também pelos prazeres, pelas satisfações animais e elementares, ossos na mesa, panem et circenses, sim, mas melhor ainda, bellum et praelia. Bellum…, é uma alegria, a guerra. Mata-se, bebe-se, massacra-se, rouba-se, pilha-se, viola-se e morre-se numa apoteose.

Uma Europa assim unificada estaria imediatamente pronta para as lutas inter-continentais. Devoraria a África. Atirar-se-ia à Ásia. Mas… que diria a América?

E depois, depois esta Europa unificada, alguém acredita que uma Europa possa viver verdadeiramente sem ideal, sem civilização? E que civilização? A mesma contra a qual nos erguemos, nós e os Ingleses, em 1939. Não, non possumus. Mais vale perder a vida, mais vale fazer já o que tantos fizeram, ainda se lembram do dia em que eles perceberam que viver, viver daqui em diante seria para eles uma perpétua renúncia, melhor o suicídio, deixar um mundo demasiado feio.

Sou desesperante. Não; nem desesperante, nem desesperado. Faço o meu ofício, sem mais, o meu ofício de historiador. Trato de ver, bem de frente, o passado e de prolongar a sua curva, com exactidão, até hoje, sem me deixar desanimar por nada neste dever. O resto? Não sou profeta, nem pastor dos povos. E não queria ocupar-vos aqui com as minhas pequenas memórias pessoais.

Europa? Falando como historiador, parece-me que o dado é, ou demasiado vasto, porque a palavra Europa abarca não uma, mas várias unidades, unidades políticas, unidades culturais, ou então demasiado restrito, porque já não se pode falar de Europa sem se referir o universo inteiro. Sim, creio, creio-o há muito tempo. Permitam-me citar-me a mim próprio. Claro que não é por vaidade, é para que não pensem que os acontecimentos me ditam, que as circunstâncias me ditam as minhas opiniões de historiador.

Em 1932, escrevia eu nos Annales (tomo IV, página 207), já escrevia: «com efeito, ao lado dos interesses materiais, ao lado das tradições políticas, vejo, na Europa deste tempo, «realidades» não menos substanciais que inquietantes na sua instabilidade: as nações. Estas nações de que a história gosta de fazer a análise; a síntese, nunca ou quase nunca. Se tentasse fazê-la, se, honestamente, se dedicasse a esta tarefa delicada, mas premente, talvez percebêssemos bem depressa que é ainda mais fácil, e mais rápido falar à humanidade do que às nações da Europa.»

A EUROPA

Pois é, o bomCloots, com todas as suas quimeras e as suas ilusões, talvez não andasse mais longe das realidades que tantos apóstolos dos Estados Unidos da Europa… A menos que… A menos que esteja ainda presente o velho sonho; fazer a Europa para a dominação universal.

[Falar à humanidade, como? Encontrando a linguagem da humanidade. Um amigo meu, que viajou muito, dizia-me um dia destes: os direitos do homem…, os direitos do homem… Que é que eu pensava disso? Um velho chavão para um discurso de político liberal? Vento? Menos que nada?]* É que me apercebi de que, uma vez passado o canal de Suez e dobrado o cabo de Aden, os direitos do homem eram para tanta gente que aparentemente nada tem de comum connosco, toda a gente que vamos encontrar na índia fértil e mais além, eram para tanta gente que de comum connosco só tem a humanidade um alimento, uma necessidade, um ideal vivo, e eu acrescento, uma gratidão persistente à França.

Sim, e o meu amigo poderia ter dito o mesmo se tivesse transposto, na rota das Américas, o trigésimo grau de longitude oeste. Lá, sim, os direitos do homem são ainda uma coisa viva. E não querem pensar, lá, que aqueles que os proclamaram já só os invocam para se rirem deles ou deles tirarem proveito. «Nem pense nisso… desencadearia a tempestade ainda mais depressa, a tempestade já não sobre a Ásia, mas sobre todo o planeta.»

É possível. Não sei, seja como for, nesse dia nada teremos a censurar-nos, nós, Franceses, nós, povos. Teremos feito os possíveis. Teremos sido, até ao fim, os portadores de um ideal, do nosso ideal, do ideal humano, do ideal sem o qual nada se faz, nada se cria.

E não é um ideal manter a ordem, estabelecer a segurança, proteger a liberdade e outras fórmulas caras aos juristas e aos políticos, outro pathos de um liberalismo abastardado e sem fé que não sabe despertar interesse, dedicação, sacrifício, não. O negativo nada cria, nada determina, nada excita.

É preciso um entendimento, um entendimento positivo ou uma emulação para grandes tarefas, para grandes obras humanas realizadas era comum.

É preciso um mundo que abata as suas divisórias de autarcia. A autarcia é a guerra. É preciso um mundo sobre o qual possam passar livremente grandes sopros de alegria, de labor e de dedicação, um mundo que se entregue a grandes obras mundiais de prestígio e a uma escala tal que permitam o sonho, o sonho mais necessário aos homens do que o pão, o sonho sem o qual não há acções.

É preciso que o prestígio de que goza a guerra, o sacrifício da guerra, o heroísmo da guerra, seja a paz que os goze, não uma paz mole, inerte, egoísta e malsã, mas uma paz viril, uma paz que lute, que vele, por quê? Pela salvação da humanidade.

E se assim não for, como será? Não digo nada. Pequenas precauções? Uma redefinição da Europa e do mundo, um novo traçado dos atlas, de alto a baixo? [Seria] loucura. Aquele velho país retalhado em quatro, em seis, em oito? Aqueloutro desdobrado?

Tenho medo, teria medo se só nos restasse o último recurso, o último viático, a esperança, esta pequena esperança que tem um ar de quase nada, diz Péguy no seu Mystère de l’esperance. Recordam-se… A imagem é tão fresca, tão nova, tão forte que fica para sempre inscrita no olhar dos que a viram…

«No caminho ascendente; Puxada, pendurada do braço das suas irmãs mais velhas; Que a levam pela mão, A pequena esperança Avança…

 E a meio… parece deixar-se levar; Na realidade é ela que leva as outras, Que as arrasta, Que faz andar o mundo.

É ela, esta pequenita, que tudo arrasta; Tudo morreria de cansaço, Esta enorme aventura, Como, após uma ceifa ardente, A lenta descida de um entardecer de verão, Se não fosse a minha pequena esperança… »

Por Lucien Febvre, in Europa – Génese De Uma Civilização